sábado, 22 de janeiro de 2011

Mais do que saudade

"Acho que morro muito, e renasço, e é sempre difícil. Não há costume que baste para nascer e morrer. Morrer geralmente é ruim, e nascer, bem... Nascer é sempre pior."

Foi você quem escreveu o trecho entre aspas. Eu deveria ter dito primeiro "que saudade", mas se eu te escrevo sem você me escrever há muito tempo, esse e-mail faz o papel do "que saudade". E é uma bem grande.

Você segue pelo e-mail discorrendo sobre como o mundo está ao contrário (e ninguém reparou). E-mail que eu escolhi aleatoriamente pra ficar um pouco perto de você.
Eu não faço muita ideia de como você está, mas acredito que no quesito tempo, você deve ter algum (acho que você checa sua correspondência todos os dias - eu também). 
Quanto a mim: sigo com dores no pé esquerdo e quadril (do lado direito - a dor é fina e latejante) há quase dois meses. Fui ao ortopedista, bati um raio x, o médico disse que poderia ser uma coisa lá qualquer que eu não entendi porque na hora ele jogou a receita pronta sobre a mesa e eu vi duas medicações prescritas. Aí eu disse, "só?". E ele disse, "só!". "E se eu não melhorar?". "Aí você volta comigo". A medicação é pra artrite. Hoje é o nono dia de tratamento, amanhã é o ultimo. E as minhas dores continuam que nem coceira de macaco: não acaba, nem fica pouca. Eu adquiri as dores correndo (pra variar). 

O lobo do homem que me cercara, desaparecera como o absurdo existêncial se esvai no final do primeiro semestre de todos os anos (pelo menos em mim é assim). Sem marcas de patas, sem sangue, sem pelos na neve branca... Em pé à soleira da porta, espero a visão do lobo surgir na penumbra, ao passo que sua ausência entristece meu lar. O lobo segue sem saber a minha verdade: "o gesto da sua mão me importa mais que suas opiniões". E nem isso mais eu tenho, e era só isso que eu tinha.
O homem lobo que me envolvia com suas histórias calou-se como um rio que corre mudo, como um corpo desnudo padece sob o sol do meio-dia, como um rochedo solitário na imensidão de uma savana.
Sei que ele segue observador e tranquilo. Talvez um pouco perdido na luxúria e jogatina, mas o âmago da sua alma continua livre de corrupção, porém está adormecido. Espero o seu despertar.


Com amor.

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