segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Noveleta

"Na minha impureza eu havia depositado a esperança da redenção nos adultos. A necessidade de acreditar na minha bondade futura fazia com que eu venerasse os grandes, que eu fizera à minha imagem, mas a uma imagem de mim enfim purificada pela penitência do crescimento, enfim liberta da alma suja de menina. E tudo isso por ele e por mim. Minha salvação seria impossível, aquele homem também era eu. Meu amargo ídolo que caíra ingenuamente nas artimanhas de uma criança confusa e sem candura...

A copa das árvores se balançava para frente e para trás. 'Você é uma menina muito engraçada, você é uma doidinha', dissera ele. Era como um amor. Não, eu não era engraçada. Sem nem ao menos saber, eu era muito séria. (...) E, por Deus, eu não era um tesouro. Mas se eu antes já havia descoberto o ávido veneno com que se nasce e com que se rói a vida - só naquele instante de mel e flores descobria de que modo eu curava.
(...)
Eu era a escura ignorância com suas fomes e risos, com pequenas mortes alimentando minha vida inevitável - o que podia eu fazer? Eu já sabia que eu era inevitável. Mas se eu não prestava, eu fora tudo o que aquele homem tivera naquele momento. Pelo menos uma vez ele teria que amar, e sem ser a ninguém - através de alguém. E só eu estivera ali. Se bem que esta fosse a sua única vantagem: tendo apenas a mim, e obrigado iniciar-se amando o ruim, ele começara pelo que poucos chegaram a alcançar. Seria fácil demais querer o limpo; inalcançável pelo amor era o feio, amar o impuro era a nossa mais profunda nostalgia. Através de mim, a difícil de se amar, ele recebera, com grande caridade por si mesmo, aquilo de que somos feitos.
Entendia eu tudo isso? Não.
(...)
Ali estava eu, a menina esperta demais, e eis que tudo o que em mim não prestava servia a Deus e aos homens. Tudo o que em mim não prestava era o meu tesouro.
(...)
De chofre explicava-se para que eu nascera sem nojo da dor. Para que te servem essas unhas longas? Para te arranhar de morte e para arrancar os teus espinhos mortais, responde o lobo do homem. Para que te serve essa cruel boca de fome? para te morder e para soprar a fim de que eu não te doa demais, meu amor, já que tenho que te doer, eu sou o lobo inevitável pois a vida me foi dada. Para que te servem essas mãos que ardem e prendem? Para ficarmos de mãos dadas, pois preciso tanto, tanto, tanto - uivaram os lobos, e olharam intimidados as próprias garras antes de se aconchegarem um nos outros para amar e dormir."
A Descoberta do Mundo - Clarice Lispector.

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