Se eu tivesse uma conversa com o Wood Allen acho que seria
assim.
_Como disse no meu aniversário anterior . Eu achava que
quando chegasse nesta idade, seria acometida por uma energia, força,
conhecimento inigualável que me tornasse superior, mais sensível, sei lá achei
que algo de extraordinário aconteceria, mas não, não. O mundo perece que
conspira contra mim. Isso não é justo. E todo mundo só sabe me criticar.
_ A vida não é justa, Janna. E danem-se as mazelas da vida.
Ora bolas. Siga em frente. “O que não falta é um monte de gente dizendo como
você deve viver, elas terão todas as respostas pra você, o que deve fazer, o
que não deve, não discuta com elas, só diga “sim é uma ideia brilhante mesmo”,
e aí faça o que quiser.” Não tem mistério. Vá lá e termine o que você planejou.
Fim. Pronto.
_Eu nem consigo
escrever. Já leu algum livro do Oscar Wilde? Dizem que eu escrevo parecido com
ele, mas isso foi há mais de um ano. Talvez eu tenha perdido essa qualidade. Eu
não tenho condições de agradecer as coisas boas que me desejam com o mesmo
entusiasmo. Tô deprimida, que merda. Não tenho coragem nem pra pintar o cabelo.
Também não consigo dormir. E nem sei o que quero da vida. Vivo mudando de ideia
o tempo todo. Every time. So easy é
viver é só respirar.
_ Olhar é diferente
de ver. Assim é viver, estar vivo de fato.
_Eu vou chegar aos quarenta anos sem saber o que eu quero
fazer da vida, que tipo de ofício me agrada? Será possível?
_Milhões de pessoas
estão na mesma situação. “Há alguns anos um escritor de comédia
maravilhoso escreveu um livro muito engraçado com um título muito significativo
e profundo. Chamava-se Jamais Confie Num Motorista de Ônibus Pelado. Mas
ficaria surpreso de ver quanta gente faz exatamente isso. E coisa pior, viu?”
_ Nesse ano eu já quis
ser mestranda, fotógrafa, intercambista, garçonete, hippie, nômade, dançarina
contemporânea e de todas essas coisas eu consegui foi ser caixa na farmácia da
minha tia. Puxa, eu queria viver de
arte, sou uma pessoa sensível, atormentada e hipocondríaca. Pelo menos os
grandes artistas em séculos passados viviam assim, deprimidos. Enchiam a cara,
cortavam a orelha, enlouqueciam pra valer. Sempre desisto no meio. Começo uma coisa e nunca acabo deixo pra lá quando fica
complicado e pulo pra outra, e a outra fica enrolada então acabo deixando de
mão. Sabe como é... Olha, vai ver que é
por isso que sempre paro no meio do caminho. Talvez lá no meu subconsciente eu
tenha medo de concluir alguma coisa e perder as esperanças de novo. Sem falar que vendi
o carro muito barato, puxa como eu me arrependo disso.
_É assim mesmo o importante é que você aprenda com
essas coisas.
_É. Agora eu espero ver o que está escrito nas entrelinhas
disso “tudo-dando-errado”. Porque vendo de fora o que dá pra entender que eu
tenho que me conformar e levar uma vida de gado. Só que eu não quero. Nossa
quero tanto ir pra Irlanda, aprender o tal do inglês, ver como é lá, e
principalmente, terminar uma coisa que eu comecei E eu não quero ser enfermeira
pra sempre. É muito chato. Enfermeiro tem que fazer um monte de coisas que não
é da nossa jurisdição e isso não é nada divertido. Gosto de pintar, queria
fazer aula de teatro pra deixar de ser tão tímida, queria dar aula de Karate pra crianças, acho que ia ser legal.
Queria ser escritora – ou pelo menos escrever um livro sobre a minha vida,
seria interessante. De longe ela parece sem graça, mas se eu soubesse passa-la
pro papel seria quase uma tragédia grega. Ah, sabe de uma coisa?
_Hum.
_Eu queria ser
enfermeira quando comecei o curso.
_É?
_É...
_Olha, Jann, "um homem compra um terno. Ele se sente feliz com o terno. Daí ele vira a esquina e vê outro terno. De repente ele não quer mais o terno que tem, não está feliz com ele. Ele quer um terno novo, não está feliz com o terno velho!"
_E daí? isso é ruim?
_Você acha que o seu problema é maior do que os outros? Você tem chance, Jann. Todo mundo tem chance de ser feliz. Lute por isso, corra atrás e se você não conseguir, pelo menos você tentou. Você vai dar muita cabeçada na vida até acertar, e talvez nunca acerte, mas o importante é não perder as esperanças. Um homem sem esperanças é um poço seco, não serve pra nada. A não ser pra jogar lixo dentro dele.
Viver é isso, é ficar se equilibrando o tempo todo entre escolhas e consequências (Jean Paul Sartre)
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