atordoada pelas lembranças do passado, mas contente pela sua grande extensão de alma engatava um livro atrás do outro como instinto de sobrevivência. lia com avidez e o coração quase seco de aflição, pois sentia medo-de-assombração de um futuro tão próximo, que ela já imaginava o que poderia acontecer.
sem saber por que, não comia carne naquele dia. rezou um pai nosso e dez ave marias, e acompanhou a leitura que a madrinha fez da bíblia exatamente às três horas da tarde, a hora em que jesus morreu. pensou que a morte ocorreu em outro continente e que o fuso horário era diferente deste. achou aquilo equivocado, mas preferiu não comunicar o erro.
exasperada pelo calor vespertino banhou-se na caixa d'água, que fazia as vezes de piscina. impura desde sua concepção, exaltou seu próprio corpo na solidão da sexta-feira santa mais despovoada da sua vida, e rogou a deus por uma companhia ou a coragem de amputar, pois do jeito que estava é que não podia ficar. "afastem-se que a vida é curta".
salvou uma borboleta amarela do desejo de morrer afogada, olhou ao seu redor e lembrou do sonho que teve esta noite e de todos os outros que pareciam interligados. começou a pensar que livre arbítrio era coisa séria e não brincadeira de deus.
ficou aflita mais uma vez e se deteve na água morna - até os dedos ficarem enrugados - esperando a hora de ir embora.
Nenhum comentário:
Postar um comentário